A AVENIDA EDUARDO RIBEIRO QUE EU CONHECI

Em 16 de maio de 2018 às 14:00, por Lúcio Menezes.

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Eram oito cilindros compridos, de plástico resistente e transparente, aglutinados em sentido vertical, com tampas na parte superior e torneiras na parte inferior. Continham xaropes de groselha, framboesa, cereja, uva, guaraná, laranja, miscelânea (o que eu mais gostava) e morango.   Esse licor de açúcar em substancia aromática era despejado num recipiente de alumínio em formato de cone, sem pé, que acolhia um copo de papel do mesmo formato e tamanho – como esses filtros descartáveis para café -, depois recebia água gelada bombeada (sabe-se lá se filtrada), despejada por um tubo curvo, fino, de alumínio – parecido com esses de bebedouro de pressão.

Os doces principais eram caramujo, sonho, rosca açucarada (toda branca pelo excesso desses carboidratos cristalizados), bolo quadradinho coberto por uma capa de açúcar petrificada e um pedacinho quadrado de goiabada bem no centro, folheado, quindim, beijo de moça e um biscoito com uma amostra grátis de doce de goiaba em cima, ambos vendidos a granel.

Os salgados da minha predileção eram empada, folheado com recheio de camarão seco e uma azeitona preta e pequena, rissole, coxinha de galinha e quibe. Essas eram as guloseimas que faziam meus olhos brilharem e que iniciaram o acúmulo de lipídios, velhos inquilinos desse latifúndio meu.

Essa era a Confeitaria Avenida, que ficava no coração da Avenida Eduardo Ribeiro. Dos dois sócios eu me lembro de um, o Seo Duarte, um português, pai do Basílio e da Rosa.  Tonico era o braço direito dos sócios, um sujeito generoso que sempre nos brindava com um biscoito de quebra.

A Avenida Eduardo Ribeiro é uma via curta, pouco mais que um quilômetro e inicia no Porto de Manaus. No canteiro central tem um obelisco e o relógio municipal, passa ao lado da Igreja da Matriz (Nossa Senhora da Conceição); cruza as ruas Sete de setembro, Henrique Martins, Saldanha Marinho e 24 de Maio. Entre a Rua José Clemente e a Dez de Julho encontram-se: de um lado, o belo prédio do antigo Tribunal de Justiça, hoje Centro Cultural Palácio da Justiça, de outro, os fundos do majestoso Teatro Amazonas. Na esquina da Rua Monsenhor Coutinho, a “Avenida” hospeda o tradicional Ideal Clube, depois atravessa a Praça do Congresso e a Rua Ramos Ferreira até ser contida pelo Instituto de Educação do Amazonas – IEA.

Aquela via era o epicentro da cidade, lá os alunos de todos os colégios de Manaus desfilavam em trajes de gala no dia 5 de setembro – feriado estadual, elevação do Amazonas a categoria de Província – e os militares no dia 7 do mesmo mês, dia da Independência do Brasil. Também lá, em fevereiro, ocorriam os desfiles das escolas de samba, carros alegóricos, o caminhão que trazia na carroceria os componentes do Mocidade Clube, com todos fantasiados de acordo com o tema escolhido para o ano – o primeiro desfile do Mocidade data de 1953 e o último 1977 -, blocos de sujos e blocos carnavalescos.

Ainda lá, na manhã da terça-feira de carnaval, passavam a pé e de carro os foliões dos bailes da segunda-feira gorda do Rio Negro e Olímpico Clube; era lá que começava e encerrava a Corrida Pedestre Henrique Archer Pinto, a mais tradicional de Manaus, que tinha como ponto alto – pasmem – a chegada do último e não do primeiro colocado.

O funcionário público e estudante da turma da noite do Colégio estadual do Amazonas, Godofredo Olímpio de Carvalho (Godô), não podia, sob qualquer hipótese, por exigência do patrocinador, chegar em penúltimo, uma forma inteligente da propaganda estampada na camiseta ser vista. A chegada do Godô em último significava o final da corrida. Godô começou a correr aos 50 anos de idade e foi por conta dele a inclusão de um novo vocábulo no dicionário amazonês: último significa, “fona” , “ foba” , “ Godô” .

Eram dois belos cinemas, Avenida e Odeon; o melhor e mais concorrido salão de beleza, Messody; vestuário masculino para os senhores, só na Capri; para os jovens, Embalo’ s e Semog’s; camisetas Hering e malas para viagem, na Loja Vitrine; Mansour e Marabá tinham os melhores e mais belos tecidos do Planeta Terra. Na Quatro e Quatrocentos (depois Lobrás, hoje Marisa) tinha “de um tudo”; a inigualável esquina do fuxico, onde nada passava batido; a barbearia Fígaro Del Rei na Galeria Central tinha público cativo – passagem da Eduardo Ribeiro para a Marechal Deodoro, pertencente a empresa JG Araújo. As lanchonetes Frial – o sanduíche de queijo vinha com uma fatia fina, quase transparente, digna de figurar no guiness book -,  Go Go e Siroco.  Próximo ao Teatro Amazonas, tem a esquina que diziam ter uma caveira de burro enterrada – nada que ali fosse montado se estabelecia. A Credilar Teatro – antes Fábrica de Guaraná Baré -; as sedes do O Jornal e Jornal do Commercio; o Bar e Sorveteria Avenida (hoje Bradesco) e a Confeitaria Avenida. Que Kibom, Cremel, Gelar que nada! O melhor picolé do mundo era da Sorveteria Pinguim, e de sorva;  a banana split e sandae  da  lanchonete da Lobrás eram imbatíveis.

Ah, como eu gostava de subir e descer aquela Avenida! Por vezes com o meu irmão, pelo singelo prazer de contabilizar e depois comemorar o sucesso daquele que tivesse cumprimentado mais pessoas; por vezes para paquerar, especialmente aos sábados pela manhã. Esse exercício de ir e vir requeria apenas um cuidado: não trajar amarelo ou laranja.

Nos anos 1960 e 1970 era um desvario trajar essas cores e passar embaixo dos benjamins e oitis que ainda hoje a arborizam. Os lacerdinhas eram uns insetos pretinhos, de tamanho diminuto, oriundos da Ásia, insaciáveis sugadores da seiva das plantas, que naqueles anos viraram praga no Brasil  –  o nome “lacerdinha”, diz-se, era uma “homenagem” dos inimigos de Carlos Lacerda, então governador do estado da Guanabara. Os moderados lacerdinhas voavam em direção às cores chamativas, pousavam e lá ficavam como se fosse seu lacerdiporto. Os radicais eram kamikazes e optavam pelo globo ocular sem escrúpulo algum. Os indesejáveis insetos provocavam uma ardência nos olhos maior que água de piscina com PH em desequilíbrio, arrancavam lágrimas, irritava, inchava.

O tempo passou, o século mudou, ficou a reminiscência… Foram-se os xaropes, os doces e salgados; foi-se o epicentro, os desfiles de gala, dos carros alegóricos, das escolas de samba, do Mocidade, blocos e foliões; foi-se a corrida de rua e o Godô; foram-se os cinemas, lojas, lanches e jornais; foi-se a galeria, o picolé de sorva, o sandae e a banana split, a disputa infantil de popularidade e as paqueras; foram-se os lacerdinhas, foi-se o encanto, quase tudo.

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.

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